O mundo atravessa actualmente o seu segundo grande episódio de branqueamento de corais em 10 anos. Depois de meses de calor oceânico recorde, sistemas de recifes entre a Austrália e a Florida estão à beira de uma catástrofe, anunciou na segunda-feira uma agência dos Estados Unidos.
As repercussões do branqueamento de corais são vastas: afectam não só a saúde dos oceanos, mas também os meios de subsistência das populações, a segurança alimentar e as economias locais.
O stress térmico intenso ou prolongado pode provocar a morte dos corais. Ainda assim, existe possibilidade de recuperação se as temperaturas baixarem e forem reduzidas outros factores de pressão, como a sobrepesca e a poluição.
"À medida que os oceanos do mundo continuam a aquecer, o branqueamento de corais está a tornar-se mais frequente e mais grave", afirmou Derek Manzello, da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA).
"Quando estes episódios são suficientemente graves ou prolongados, podem causar a mortalidade dos corais, prejudicando as pessoas que dependem dos recifes de coral para garantir os seus meios de subsistência."
A monitorização de stress térmico da NOAA assenta em medições por satélite realizadas desde 1985 até à actualidade. O actual episódio de branqueamento é o quarto registado, depois dos ocorridos em 1998, 2010 e 2016.
Branqueamento de corais e os seus efeitos
Os corais - invertebrados marinhos constituídos por animais individuais chamados pólipos - mantêm uma relação simbiótica com as algas que vivem nos seus tecidos e lhes fornecem a principal fonte de alimento.
Quando a água aquece demasiado, os corais expulsam essas algas e ficam brancos. Este fenómeno, designado "branqueamento", deixa-os vulneráveis a doenças e em risco de morrerem.
Onda de calor sem precedentes
Desde o início de 2023, foi confirmado o branqueamento em massa de recifes de coral em toda a zona tropical, incluindo na Florida, nos Estados Unidos, nas Caraíbas, no Brasil e no Pacífico Tropical oriental.
Segundo a NOAA, a onda de calor de 2023 na Florida começou mais cedo, prolongou-se por mais tempo e foi mais severa do que qualquer outro episódio alguma vez registado naquela região.
A Grande Barreira de Coral da Austrália, o maior sistema de recifes de coral do planeta e o único visível do espaço, também foi fortemente afectada. Vastas áreas do Pacífico Sul, do mar Vermelho e do Golfo sofreram igualmente impactos graves.
"Sabemos que a maior ameaça aos recifes de coral em todo o mundo são as alterações climáticas. A Grande Barreira de Coral não é excepção", declarou recentemente a ministra do Ambiente australiana, Tanya Plibersek.
Frequentemente descrita como a maior estrutura viva do mundo, a Grande Barreira de Coral estende-se por 2 300 quilómetros de corais tropicais e alberga uma impressionante diversidade de espécies.
Os sucessivos episódios de branqueamento em massa ameaçam retirar o encanto desta atracção turística, transformando extensões de corais antes vibrantes numa tonalidade de branco doentia.
Extinção até ao fim do século?
Cerca de 850 milhões de pessoas em todo o mundo dependem dos recifes de coral para alimentação, emprego e protecção das costas contra tempestades e erosão, de acordo com a organização sem fins lucrativos WWF. Estes ecossistemas servem de refúgio à vida marinha, sendo o habitat de mais de um quarto das espécies marinhas.
A NOAA calcula que o planeta já perdeu entre 30 e 50 por cento dos seus recifes de coral e que estes poderão desaparecer por completo até ao final do século sem uma intervenção significativa.
"Se precisarmos de um exemplo específico, visual e contemporâneo do que está em jogo a cada fracção de grau de aquecimento, é este. A dimensão e a gravidade do branqueamento em massa de corais são uma prova clara dos danos que as alterações climáticas já estão a causar", afirmou Pepe Clarke, da WWF.
Apesar deste cenário sombrio, a NOAA referiu ter feito "progressos significativos" no desenvolvimento de intervenções contra o branqueamento de corais. Entre elas contam-se "a deslocação de viveiros de coral para águas mais profundas e frias e a instalação de protecções solares para defender os corais noutras zonas".
© Agence France-Presse






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