O autismo é uma diferença do neurodesenvolvimento associada a experiências e características específicas.
Durante décadas, a investigação sobre o autismo concentrou-se nas dificuldades comportamentais, cognitivas, sociais e comunicacionais. Estes estudos mostraram que as pessoas autistas podem deparar-se com obstáculos em tarefas quotidianas que as pessoas alistas - ou seja, não autistas - não enfrentam. Entre essas dificuldades pode estar o reconhecimento de emoções ou de sinais sociais.
No entanto, alguns estudos, incluindo uma investigação nossa, analisaram vantagens particulares associadas ao autismo. A evidência indica que, em determinadas tarefas cognitivas, as pessoas autistas obtêm melhores resultados do que as pessoas alistas. Podem ser mais eficazes a identificar uma forma simples integrada num desenho mais complexo, a organizar blocos de várias formas e cores ou a encontrar um objeto num ambiente visual sobrecarregado, semelhante a Onde Está o Wally?. Este desempenho melhorado já foi registado em bebés de apenas nove meses que apresentam sinais emergentes de autismo.
Porque se destacam as pessoas autistas nestas tarefas e de que forma isso acontece? A explicação pode ser inesperada: mais “ruído neuronal”.
O que é o ruído neuronal?
Em geral, quando pensamos em ruído, pensamos provavelmente no ruído auditivo: as variações, para cima e para baixo, na amplitude das frequências sonoras que ouvimos.
No cérebro ocorre algo semelhante através de flutuações aleatórias na atividade neuronal. É a isto que chamamos ruído neuronal.
Este ruído está sempre presente e sobrepõe-se à atividade cerebral desencadeada pelo que vemos, ouvimos, cheiramos e tocamos. Por isso, um estímulo idêntico apresentado repetidamente não provoca exatamente a mesma atividade cerebral. Por vezes, o cérebro está mais ativo; noutras, está menos ativo. Na realidade, até a reação a um único estímulo ou acontecimento varia de forma contínua.
Ruído neuronal no autismo
O ruído neuronal pode ter muitas origens no cérebro. Entre elas estão a forma como os neurónios são ativados e regressam a um estado de repouso, as alterações nos níveis de atenção e de alerta e os processos bioquímicos a nível celular, entre outros. Um cérebro alista dispõe de mecanismos para gerir e utilizar este ruído. Por exemplo, as células do hipocampo - o sistema de memória do cérebro - podem recorrer ao ruído neuronal para melhorar a codificação e a recuperação de memórias.
Há indícios de níveis elevados de ruído neuronal no autismo em registos de eletroencefalografia (EEG), nos quais foram observadas flutuações neuronais mais intensas em crianças autistas. Isto significa que a respetiva atividade neuronal é menos previsível e apresenta uma gama de atividade mais ampla - maiores oscilações - perante o mesmo estímulo.
Em termos simples, se imaginarmos as respostas do EEG como uma onda sonora, esperaríamos pequenas oscilações de amplitude num cérebro alista sempre que encontra um estímulo. Contudo, os cérebros autistas parecem apresentar oscilações maiores, revelando uma amplitude superior de ruído neuronal.
Muitos estudos associaram este cérebro autista mais ruidoso a dificuldades cognitivas, sociais e comportamentais.
Mas será que o ruído pode ser uma vantagem?
O diagnóstico de autismo tem uma longa história clínica. A passagem de um modelo médico para um modelo mais social levou também à defesa de que seja entendido como uma diferença, e não como uma perturbação ou défice. Esta mudança chegou igualmente à investigação sobre o autismo. A investigação neuroafirmativa pode explorar a singularidade e os pontos fortes da neurodivergência.
David Simmons, investigador em psicologia e perceção, e os seus colegas da Universidade de Glasgow foram os primeiros a propor que, embora níveis elevados de ruído neuronal sejam habitualmente uma desvantagem no autismo, por vezes podem trazer benefícios devido a um fenómeno denominado ressonância estocástica. Neste fenómeno, quantidades ideais de ruído podem melhorar o desempenho. De acordo com esta teoria, o elevado ruído neuronal no cérebro autista poderá favorecer o desempenho em algumas tarefas cognitivas.
A nossa investigação de 2023 examinou esta hipótese. Recrutámos participantes da população em geral e avaliámos o seu desempenho em tarefas de deteção de letras. Em simultâneo, medimos o respetivo nível de traços autistas.
Realizámos duas experiências de deteção de letras - uma em laboratório e outra online - nas quais os participantes tinham de identificar uma letra apresentada sobre ruído visual de fundo com diferentes intensidades.
Ao utilizar esse ruído visual, acrescentámos ruído externo ao ruído neuronal já presente nos cérebros dos participantes. Colocámos a hipótese de que o ruído visual levaria as pessoas com pouco ruído cerebral interno - ou com poucos traços autistas - a um melhor desempenho, tal como sugerido por estudos anteriores sobre ressonância estocástica. A previsão mais interessante era a de que o ruído não ajudaria os indivíduos que já tinham muito ruído cerebral, isto é, aqueles com muitos traços autistas, pois o seu próprio ruído neuronal já lhes garantiria um desempenho ideal.
De facto, numa das experiências, as pessoas com elevado ruído neuronal - muitos traços autistas - não beneficiaram do ruído adicional. Além disso, quando o ruído visual introduzido era reduzido, apresentaram um desempenho superior, com maior precisão, comparativamente às pessoas com baixo ruído neuronal. Isto indica que o seu próprio ruído neuronal já produzia naturalmente um efeito de ressonância estocástica, resultando num desempenho melhor.
É importante salientar que não incluímos participantes autistas com diagnóstico clínico. Ainda assim, demonstrámos, de modo geral, que a teoria de um melhor desempenho no autismo devido à ressonância estocástica tem fundamento.
Porque é que isto é importante?
As pessoas autistas enfrentam ignorância, preconceito e discriminação, fatores que podem prejudicar o bem-estar. Entre os efeitos negativos com que se deparam estão uma saúde mental e física mais frágil, menos ligações sociais e uma maior “camuflagem” dos traços autistas.
Por isso, a investigação que evidencia e estuda as forças inerentes ao autismo pode contribuir para reduzir o estigma, permitir que as pessoas autistas sejam elas próprias e reconhecer que não precisam de ser “corrigidas”.
O cérebro autista é diferente. Tem limitações, mas também possui pontos fortes.
Pratik Raul, doutorando, Universidade de Camberra; Jeroen van Boxtel, professor associado, Universidade de Camberra; e Jovana Acevska, licenciada com distinção, Universidade de Camberra
Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.






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